Pirifolia

A sereia do Pirapora

Publicada em 09 de Abril de 2012 às 08h26 Versão para impressão

Foto: Desenho de Jackson Cristiano Sereia Sereia
Há muitos e muitos anos, antes mesmo que a cidade de Pedro II fosse fundada, bem perto do olho d’água Pirapora vivia uma família: pai, mãe e uma filha.

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Uma tarde, quando seus pais saíram para visitar uns parentes no bairro Saborá, a menina, de tanto pedir a mãe para ficar, esta acabou permitindo que a filha ficasse. Mas avisou:

- Está bem, minha filha, você pode ficar. Você é uma boa filha, me ajuda com as coisas de casa: me ajuda a varrer, a engomar, a aprontar rede, a encher os potes da Cantareira. Me ajuda a acender o fogareiro, a cuidar da trempe e até a dar de comer aos bichos de criação. E faz tudinho sem reclamar.

A menina quase não podia acreditar no que estava ouvindo. Sim, ela poderia ficar em casa e depois que os pais saíssem, poderia, finalmente, ir ver aquilo que se tornara um segredo só seu nos últimos tempos.
Mas a mãe, já saindo, depois de abençoar a filha, ainda disse:

Michael Dweck

-E não vá a lugar algum. Hoje é Sexta-feira Santa e nesse dia não se trabalha. Nem pense em ir buscar água no Pirapora, está ouvindo?

- Sim, mamãe, sua benção, ela disse baixinho, olhando para o chão, pois já sabia que iria desobedecer pela primeira vez aquela que a pusera no mundo.
Quando os pais dobraram a curva do caminho, a menina pegou a cojuba de detrás da porta e tomou o caminho do Pirapora.

Naquele tempo o lugar tinha uma bela vegetação. Era tudo muito verdinho. Com árvores frondosas, de troncos roliços. Os galhos atucanados de folhas iam terminar lá em cima e de tão altos a menina pensava que encostavam no céu.

As pedras da ladeira do Pirapora apareceram à sua frente. Tinham tamanhos e cores diferentes. Umas juntas às outras, das mais claras às mais escuras. Algumas lisas e outras caraquentas. Umas arredondadas e outras pontudas. Mas tudo se encaixando como num grande quebra-cabeça.

Entre as pedras da ladeira, pés de malícia, de quebra-pedras, de berdoégoas. Havia também muitos insetos alados, carambolos e passarinhos.

A menina ia descendo com cuidado, mas ia ligeiro. Finalmente, depois de alguns minutos, chegando lá embaixo, à beira do riacho, sentou-se em uma pedra e ficou admirando a beleza do lugar ao mesmo tempo em que recuperava o fôlego.

O coração, porém, disparava, não mais devido ao cansaço, mas ao relembrar que há algum tempo havia tido uma visão que marcara sua vida como nenhuma outra. E tinha mentido para a mãe dizendo que não sairia de casa só para poder ficar só e sair. Porque precisar ver de novo o que tinha visto uma única vez em toda a sua vida. Simplesmente precisa ver de novo. Nem que fosse pela última vez.

Ainda estava mergulhada em pensamentos sentada na mesma pedra que havia estado da primeira vez. Encostou a cojuba em uma laje e ficou brincando de jogar pedrinhas dentro d’água.

De repente, tudo ficou muito quieto. Só se ouvia o barulho da água escorrendo, quando uma miríade de cores brotou bem diante de seus olhos, do outro lado do riacho, no galho da ingazeira. Era o mesmo pássaro emplumado que ela vira daquela primeira vez. O pássaro começou a cantar e a cantar. A menina, extasiada, levantou-se e foi ao seu encontro na tentativa de tocar o pássaro. Mas ao caminhar, escorregou, batendo com a cabeça em uma pedra e caindo dentro da água.

Luna Marques*, também já encarnou a 'Sereia do Pirapora'.

A menina morreu afogada. Veio a noite e seus pais com todos os vizinhos, dando por sua falta, passaram a noite toda procurando por ela, sem encontrá-la. Encontraram apenas a cojuba no mesmo lugar que ela havia deixado.

A noite passou, veio o dia e mais uma noite e outro dia e nada de acharem a menina. Até que desistiram de procurar. Apenas a mãe continuava a procurar a filha querida. Fez isso até morrer, bem velhinha.

O tempo passou, passou e quase tudo caiu no esquecimento.



Cleiciane*, caracterizada de Sereia do Pirapora.(Álbum pessoal).

O povo, no entanto, diz que quando é noite de lua cheia pode-se ouvir, se tiver paciência, uma bela cantiga na voz de uma jovem, ali para as bandas do Pirapora. E se além de paciente for curioso ou curiosa, pede-se chegar na beira do talhado, com muito cuidado, afastar algum arbusto que houver e, mirando com muito cuidado ver a silueta de uma sereia na beira do riachinho com um belo pássaro emplumado pousado em seu ombro. Bem ..., é o que dizem... E de tanto dizerem é que surgiu essa lenda sobre a Sereia do Pirapora.




*PS. Nossos agradecimentos à Cleiciane e à Luana por emprestarem suas imagens para  embelezar esse texto.




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Apoio cultural desta coluna: TENDA DA CRUVIANA

ERNÂNI GETIRANA é professor, esquisador e escritor.
É autor, dentre outros livros, de 'LENDAS DA CIDADE DE PEDRO II'.
É também o idealizador do projeto TENDA DA CRUVIANA. (www.cruvianadepedroii.blogspot.com)



Palavras-chaves:
Fonte: TEXTO:Getirana Desenho: Jackson Cristiano  |  Edição: Ernani Lima
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• COMENTÁRIOS (1)

  • 13/01/2014 às 11h04

    nossa que mentira

    allicya, Palmares-PE
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